UMA CARTA?

às peixas

Le Mat - The Fool

Como carta, isto é a abertura de uma paisagem em movimento. Querer uma espécie de encontro num lugar diferente do mero discurso. Minha forma de combate passa pelo íntimo, porque é nos bastidores, no que está longe dos holofotes, que acontecem as execuções e se elaboram as transformações.

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  1. parte simbólica

            Entre as interpretações da carta O Louco, uma que me toca é a do esvaziamento anterior a uma revolução. E a revolução tanto pode ser a da acepção contemporânea, de mudança radical das estruturas, como a antiga, do movimento circular que (constantemente) inverte a ordem das coisas. Tem esse caráter de ser a única carta sem número, pode ser algo anterior à formação do mundo (o zero) ou a conclusão desse processo formativo, o que vem depois da carta O Mundo, a última do baralho. Digo: alguém pode achar O Louco um signo de inocência, alguém pode achar O Louco um signo do displicente, alguém pode achar O Louco uma síntese interessante de contrastes, alguém pode sentir angústia ou empatia pela figura do Louco: ele parece relaxado longe do poder, perto do abismo.

            Se fosse uma pessoa, não entenderiam porque ele se afasta de tudo e de todos, seja por falta de identificação, seja porque sente prazer na desconstrução, seja porque faz parte da trajetória de sua figura (talvez dissesse que bem pouco nessa vida diz respeito à escolha do indivíduo, essa categoria cultural). Uma figura é um sentido que eclode dentro de uma narrativa, uma que já existia quando os traços dela se destacaram do emaranhado de relações.

            Pois é isto: uma narrativa é um emaranhado de relações. Um baralho. Como o do tarô. E o percurso total ilumina o percurso das partes de modo que se compreenda a importância de cada uma das vozes para a formação do mundo (o palco, o instituído etc.). O Louco é o que está de fora. Seja porque não faz parte do que se chama de mundo (é um marginal; um excluído; o que se chama de bárbaro; o povo que chamam de tempo superado;  o que não se compreende e por isso, a alguns, ameaça etc. etc. etc.), seja porque a personagem que ele é determina que ele busque um modo de escapar, se torne um pária justamente por imaginar algo radicalmente diferente do que as propostas que deixa pra trás.

            O Louco abandona os valores (a linguagem) de certa sociedade. Ele não quer os títulos das figuras que vêm depois dele. Ele não vê sentido ou prazer no contraste entre o que se diz, o que se mostra e o que se é nos bastidores. Ele não pensa que o melhor lugar é o da boa publicidade, da boa reputação, mas o da manifestação autêntica do vazio que representa ao campo das disputas de poder. E esse poder pode ser o acúmulo de capital propriamente dito, o acúmulo de capital simbólico, qualquer acúmulo que torna alguém parte integrante daquilo que diz combater.

            Isso. O Louco não pode existir de fato na sociedade. Porque O Louco é o elidido por excelência. Se uma linguagem diz que isso existe e aquilo não existe, se só se pode existir dentro da linguagem oficial, O Louco é o suicida (ainda que não mate o próprio corpo, isso que aos olhos de quem vê é só um tipo de cristaleira para um lugar social). Então, O Louco que não mata o próprio corpo encena o papel da testemunha, enquanto, como todas as outras figuras, fica à mercê da narrativa alheia.

            O Louco deseja que você pergunte a respeito do que ele quer contar. Mas decide viver a despeito dos seus desejos tão gigantes como a falta que ele carrega na trouxinha em seus ombros. Ele espera (sem esperar) que se desamarre a trouxa e se ache a pulsação do zero nesse arremedo de ventre.

 

  1. parte material/social

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