melancholia y chaos (anotações)

scene antichrist, lars von trier

arte não é arte a menos que ameace a sua existência. repita isso, por favor. bem devagar. lawrence durrell

não seria necessário que o homem trágico, em sua autoeducação para o sério e o horror, devesse desejar uma nova arte, a arte do consolo metafísico, a tragédia como a helena a ele devida (…) não seria necessário? não, três vezes não, ó jovens românticos. não seria necessário. mas é muito provável que isso finde assim, que vós assim findeis, quer dizer, consolados, como está escrito, apesar de toda a autoeducação para o sério e o horror, metafisicamente consolados, em suma, como findam os românticos, cristãmente. nietzsche

[RABISCO] alexandria é a cidade torturada por duas mulheres. entornam tensa e evidente a estranheza de um oxímoro. antares (?) melancholia se aproxima, e o cavalo cai (…) justine risca uma estrela escura entre os seios enormes: duas luas assombrando o sol (eclipse duplo). e o olor esmaga: papoula rubra. cães selvagens mordem constelações lacustres. [em prosa: bebem o reflexo da noite em águas agitadas pela sede]. o mundo soa mais antigo, embora esteja perto da colisão.

em jardim das delícias terrenas, de hieronymus bosch, há um espaço entre o inferno e o paraíso. talvez província do gozo, ou intermitência da morte — também chamada vida:

para bosch, o mundo (borbulhante de metamorfoses) não conhece a razão: o espaço anuncia ameaças, mas não tem dimensões. joão garção

interrupção brusca. pieter brueghel. | segundo carel van mander:

era um homem tranquilo, sábio e discreto. porém, quando estava acompanhado, divertia-se assustando as pessoas e os seus aprendizes com histórias de fantasmas e outras diabruras.

retrata pessoas do campo, festas, paisagens. | em melancholia, caçadores e cães correm em uma paisagem pouco convidativa.

outro corte. em davi e golias, de caravaggio, o chiaroscuro da técnica reverbera o chiaroscuro do espírito.

mais um golpe, desta vez fatal. a ophelia, de millais, é a típica imagem romântica da mulher morta.

essas obras têm as seguintes coisas em comum: são avessas aos padrões racionalistas e figuram no trabalho mais recente do cineasta lars von trier.

justine, metade silvestre da protagonista, substitui pinturas de malevich — pinturas geométricas, de cores básicas — por bosch, brueghel, caravaggio, millais.

isoladamente, melancholia é um filme de belíssima fotografia e composição [poesia de imagens que lembra tarkovsky]. porém é um trabalho menor de von trier.

menor porque serve como acréscimo a filmes anteriores, marcadamente o anticristo, em que a natureza devastadora e anúncios estelares pouco amigáveis se embaraçam ao contraste entre apolíneo e dionisíaco (nietszche).

esse acréscimo, porém, está longe de ser mero acréscimo.

uma carreira artística é como uma série de perguntas a determinado público

disse lars.

em sua obra, percebe-se nitidamente esse entrelaçamento de questões.

discípulo de extraordinários cineastas como carl t. dreyer, bergman, tarkovsky, lars cria articulações imprevistas entre a realização estética e as modulações de sua ampla análise. (…) e por aí entramos em vasto labirinto.

a trama de referências e diálogos com artistas e pensadores extrínsecos e (muitas vezes) alheios à indústria cinematográfica é parte indelével de sua habilidade. | não se apresenta como excesso de citações gratuitas. cria espaços de reflexão do tipo móbile, compondo, com o restante da arquitetura imagética, instalação de proporções gigantescas, onde é preciso entrar mais de uma vez, onde a atenção é o único meio de sair pela porta certa, sem regressar àquela dos desesperados, cor-de-rosa e néon, dos anúncios de um produto qualquer.

melancholia tem o prelúdio de tristão e isolda, do wagner, peça fundamental ao desabamento de pássaros e à noiva entre plantas e águas, a relembrar a amante suicida da mais famosa figura de shakespeare, a mulher enlouquecida, mulher de mudez em devir, subordinada a homens românticos [frase dúbia com mais de um propósito].

seria interessante estudar a construção de imagem-música da série trier: a paixão segundo são matheus, de bach, em dogville (mesma trilha de o sacrifício, de tarkovsky); ópera rinaldo, de handel, em o anticristo etc. | wagner, por sinal, retomará os preceitos românticos. | wagner, que merece um prefácio-carta de nietzsche, em o nascimento da tragédia. | wagner, aquele que instaurou o leitmotiv na música, entrelaçado a um grundmotiv.

de verdade, mencionar grundmotiv e leitmotiv como essenciais na estrutura de todos os trabalhos de lars me parece fascinante. pena que não cabe aqui. não cabe na pressa dos dias.

wagner, aliás, era o querido de vários filósofos e artistas, entre os quais estava nietzsche, mas não sem conflito, o que renderá correções ao primeiro prefácio de o nascimento da tragédia.

 além do entrelaçamento de ícones germânicos, outro laço: o duplo literário representado pelas irmãs justine-clair, em o quarteto de alexandria: as tais amigas justine-clea, de lawrence durrell. |  convém dizer que a justine-durrell, na historinha do romance, casa-se com um rico judeu e torna-se amante do narrador. as intrigas todas se passam em alexandria, no egito, e há bastante astronomia-astrologia-ficção, para o delírio de pessoas como eu. agora sim, apontamentos do autor em um apêndice do primeiro volume:

clea sempre consulta o horóscopo antes de tomar qualquer decisão.

relato de clea sobre a terrível festa: no carro, com justine, avistaram uma caixa de papelão na estrada. como estavam atrasadas, colocaram a caixa no banco de trás e não a abriram até chegarem à garagem. dentro dela havia o cadáver de um bebê envolto em jornal. o que fazer com aquele homúnculo ressecado? órgãos perfeitamente formados. | os convidados estavam pra chegar, precisariam agir rápido. justine escondeu o bebê numa gaveta da cômoda da sala. a festa foi um sucesso estrondoso. (…) um casamento entre passado e presente, com a multiplicidade veloz do futuro vindo ao nosso encontro. enfim, pelo menos era essa a minha intenção.

antes, justine e nessim rumo ao casamento:

justine acelerando o rolls-royce no deserto, na estrada para o cairo. os faróis apagam-se de repente. no escuro, o carro sai da estrada e, zunindo como uma flecha, crava-se numa duna de areia. tudo indica uma sabotagem na fiação. nessim chega ao local em meia hora. abraçam-se.

descrição de justine:

flecha na escuridão

descrição de clea:

água parada, sofrimento

[de volta às pinturas, citadas no início deste rascunho].  em melancholia, como acontece em o anticristo, quadros reforçam o grundmotiv e localizam o espectador na virada narrativa e no eixo do contraste (o helênico e o trágico; o apolíneo e o dionisíaco [nietszche]; o festivo e o melancólico; o chiaroscuro: destaque do objeto contra o fundo, sem traço marcado, esfumando.

em o anticristo, gravuras de mulheres torturadas na época da inquisição surgem bem perto da transformação mais radical da estudante do feminicídio, quando ela se vinga da História de maneira autofágica, reproduzindo a violência, para mostrar ao psicólogo raso a fundura de uma ferida mal tratada, abordada com panos quentes e métodos pueris de análise: a irrupção da doença do espírito se ignorada ou subestimada. | e o estouro dos limites se dá no enforcamento, previsível ao se observar a constelação dos três mendigos (dor, luto, desespero). | enforcamento e fogueira a reativar a memória do medievo: o mistério é banido, humilhado, incinerado.

a primeira parte do melancholia acontece depois do prelúdio imagético, sintonizado ao prelúdio musical. | à semelhança  do anticristo, há uma ópera que remete a elementos da cultura celta; à semelhança do anticristo, a mulher-cavalo [ref. medea, lars von trier] associa-se à bruxa, amante da natureza e seus eflúvios amorais. à semelhança do anticristo, um profissional das ciências [arquétipo do racionalismo cientificista] procura dissuadir a potência [arquétipo do feminino silvestre] e a impotência [arquétipo do feminino subjugado pela cultura] da ideia de colapso do mundo. | no primeiro filme, um cognitivista. no segundo, um astrônomo. | a potência [tia quebra-aço ou lilith sem nome] é o eixo da emersão do incontrolável, do ancestral, das forças desconhecidas, do poder da morte.

e há cenas de um carro indirigível, de um atraso, de um ritual-casamento milimetricamente calculado. e há uma família rica e a mansão [cf. lawrence durrell, o quarteto de alexandria]. mansão cujos buracos de golf criam signos de uma cosmologia particular. e há uma criança e a crença na caverna mágica (quando já sabemos, desde o início, que a Terra será engolida por Melancholia).

a forma de filmes como dogville ou anticristo ousa incomodar em todas as fases da arquitetura cheia de móbiles. melancholia é delicado e usa uma forma mais confortável pra enunciar uma catástrofe (ou ciclo previsível e instigante) à qual as pessoas se tornaram insensíveis (e não só desde o advento das películas tematizando a destruição em massa, notadamente estadunidenses): o retorno ao caos primevo, onde toda vaidade se dissolve (e todo o resto).

e se (…) os gregos, precisamente nos tempos de sua dissolução e fraqueza, tivessem se tornado cada vez mais otimistas, mais superficiais, mais teatrais, bem como mais ansiosos por lógica e logicização, isto é, ao mesmo tempo mais serenojoviais e mais científicos? Como? Poderia porventura, a despeito de todas as ideias modernas e preconceitos, a vitória do otimismo, a racionalidade predominante desde então, o utilitarismo prático e teórico (…) de que são contemporâneos — ser um sintoma da força declinante, da velhice abeirante, da fadiga fisiológica? e precisamente não — o pessimismo? foi epicuro um otimista — precisamente enquanto sofredor? vê-se que é todo um feixe de difíceis questões que este livro carregou — acrescentemos ainda a sua questão mais difícil! O que significa, vista sob a ótica da vida, a moral? (…) mas, meu caro senhor, o que é romântico no mundo, se o vosso livro não é romântico? será que o ódio profundo contra o tempo de agora, a realidade e as ideias modernas pode ser levado mais à frente do que aconteceu em vossa metafísica do artista, a qual prefere acreditar até no Nada, até no demônio, a acreditar no Agora? não estará zumbindo, por baixo de toda a vossa contrapontística arte vocal e sedução dos ouvidos, um baixo profundo de cólera e de prazer destruidor, uma furiosa determinação contra tudo o que é agora, uma vontade que não está muito longe do niilismo prático e que parece dizer é preferível que nada seja verdadeiro do que vós terdes razão, do que vossa verdade ficar com a razão! escutai vós mesmos, senhor pessimista e deificador da arte (…) o vosso livro pessimista não é ele mesmo uma peça de anti-helenismo e de romantismo (…) um narcótico, até mesmo uma peça de música, de música alemã?

[continua]

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2 comentários

  1. may, querida. gostei de tudo, mas não sei se concordo, pra variar!! haha, vamos conversar mais sobre, pode ser?
    beijos, flor e boa semana

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