estalo no meio da orquestra


o tal do processo criativo

coisa morna. sopa de letrinhas. uns retiram da cartola umas cartas viciadas. truques banais. outros são mais hábeis. virtuoses. o ouro de tolo aguça a cobiça alheia. tudo isso também é escrita. a maior parte dela. qualquer rabisco no papel: documentos, bilhetes. qualquer risco na folha virtual: falta de luz, bug do milênio. exibição de conhecimentos gerais. etc. etc. etc.

entre os aspirantes a escritor, muitos acrescentam zeros à estatística dos leitores programáticos. nada de amor a literatura: interesses sociais.  estro fraco.

palavra, quando deixa de ser grunhido, sopa derramada, vira código da ausência. é um espírito. surdo e musical. não entende teus anseios. é um corte no tempo. e tudo o que não cabe nas metáforas.

desmontável. transforma-se em espírito-objeto, enfia-se na tua capacidade de moldar o visível, declarar a falsidade das fronteiras.

o talentoso deixa o dito pelo não dito. corta no branco um espaço, mete os dedos no vazio em busca do imprevisto, até que o silêncio pulse em alta tensão.

não se escreve apenas com palavras. a palavra é elementar, meu caro par de olhos. tiro n’água. sente a vibração?

se eu pudesse, não escrevia. sou fisgada pelo espanto. pelo absurdo-ordinário. potência extraordinária. irrealidade. irrealidade.

apanho um pensamento a partir da organização sintática: é o ritmo da imaginação, amálgama, impressão digital da natureza aérea. libra ascendente aquário. e a seta lunar do Arqueiro – herói de fogo enfiado nos sapatos.

a morte inunda meu corpo numa cadência própria e vêm imagens: me perco ali, um pouco. tudo se embaralha. é o eco de pensamentos muito antigos, sequer inventados. agora fagulhas – espetam minha cabeça; formigas, barulho. me provocam, sacodem meu corpo. que se despeja no suporte mais próximo: folha virtual. papel. memória. braço.

você pode chamar tudo isso (tudo isso) de vontade imperativa. é uma síntese mais ou menos próxima do fato. e é sempre bom economizar palavras: lembre-se de que elas formam teu espólio.

a vontade imperativa é um excesso. de muito pôr o mundo na cabeça (entre livros, personagens, experiências variadas), de muito olhar para ele com atenção e desconfiança, chega-se à estrutura ficcional de tudo o que existe. daí, sobram muitos cacos. é desse resto que nasce um escritor-artista.

depois, sim, depois se usa tesoura, cola, barbante,  esparadrapo: é hora da oficina. o ritmo da imaginação cavado no suporte disponível torna-se a matéria elástica: puxe, repuxe, amasse, até ficar no ponto, que nunca é exato – embora deva à geometria o ar da graça.

é assim que eu faço.

te digo que o processo criativo é um estalo no meio da orquestra. e saio assobiando. de graça.

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4 comentários

  1. processo criativo não é meio para nada, princípio e fim em si mesmo.
    difícil de entrar, impossível de sair.
    gostei muito de te ler.
    bjoca.

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