antilançamento

este espaço, corpo fora do corpo, ainda é o antilançamento. as palavras soltas são apenas grunhidos mais ou menos relevantes. literatura, ao contrário, é tudo o que se arranja em torno delas, quando se transforma a escrita em implosão silenciosa.

eu, que jamais continuaria nada deste mundo (eu não continuo o mundo); nem chamaria meu enredo de oposto. gravo aqui, aos pouquinhos, ousadias em sequências espiraladas.

pegue uma para a sua coleção de inauditos.

é o que tem pra hoje. & uma carta do ano passado:

dedos de roberta sobre a carta

29 de novembro de 2010 | para roberta ferraz

teu escrito não é sobre o livro. é dentro.

“eu te procuro nesta fresta – é do alto que caem das vigas de papel coloridos, cai e enrosca a cabeça, fere quase porque leva a cegar, conduz – mas resta um espaço de espio, já estive dobrada para o beijo outra vez, não apenas porque é carnaval, ou sobram das arcadas estas serpentinas, sem motivo? votiva – tu – doer até recortar.”

fiquei espantada, pq acabo de ler o fio vermelho de schereber, cordões no lugar dos seios. e vc não viu ainda os olhos vermelhos de tartaruga, olhos cegos sob a página – marcados, colados, costurados ao branco da folha. em adesivo. fácil de tirar ou colocar em outra parte. porém manda um manuscrito. a tinta, esse fio encarnado. costura o gesto a outro gesto a outro gesto. o fio é esse filho do espanto. refeito. em carne viva.

vc ainda não recebeu ESTE caderno-livro. feito pra grudar no ventre, tatuar na vida, como um filho ou esqueleto. pra incorporar. fincar em outras partes. enfiar os dedos e dilatar as fissuras. criar territórios no mapa, ao puxar as bordas do vazio.

com a mão-objeto, perfuro e deixo manchas na página, a poça negra na pauta, contornos, desenhos de outros textos, aderência, entre as frestas da potência e da intuição metódica. vc também pulsa. tece o rosto em minhas frestas. a multidão de fragmentos torna-se, então, outra orquestra.

silêncio enfiado no grito. a profunda escuridão de um corpo do avesso – um corpo sem escada, na mesma dança onde o Enforcado se pendura: encontro e susto.

– pra fincar nos pés, outra seta, sombra de uma direção paralela.

assim, atravessa o meu sonho. e eu atravesso o teu: de fio, fenda e falésia. de repente, mais duas: érica e renata. a mulher tríplice, quádrupla, quíntupla: de tantas cabeças e formas e dedos.

nós.
outros nós.
e alguém que acena.

“com ele, o luminoso extensivo, a cordura ácida dos despejos, descemos. uma roda da fortuna – mas ainda há morte, vida estaciona – salivamos – pressentes o susto do corpo remoído quando vier o esquecimento. por enquanto, entornas, vergor de estacas, corpo de viagem e língua, prendendo-o no muco”.

sem demora, ponho a carta ao meu lado. “corpo de viagem e língua”. uma inscrição no que existe pra dentro, mais dentro, na música, uns retratos quebradiços. tua imagem se embaraça nesta música, meu presente, espalha-se, uns cabelos negros, poça de tinta, inunda a casa inteira.

me ponho inacabada entre as surpresas de ser tantas, de estar contigo, das sintonias que provocam manuscritos em vermelho. líquido viscoso. que fecunda imagens subterrâneas, transparências.

anti-lançamento. arco. a corda tesa e retesada. tempo encantado. etc.

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