roseiras e bicicletas | yo viviré

as rodas de uma bicicleta — bem sabem as trigêmeas de beleville — são musicalíssimas. a música e os giros transformam os ciclos dúbios sob os pés em cosmogonias miúdas, discretas, e a leveza e a memória dos passeios, a dança circular das pernas, esse lirismo que se enfia nas ruas, zonzo do sol (sabe-se lá), tornam o convite da ana, o convitinho simples de juntar minhas curvas nas estradas de sábado aos rodeios das pedalinas, um quase poema. mas disso eu não posso falar | só sei do sequestro:

Talvez a revolução esteja em seus corpos e eu não a veja

diz o excelente poema da cecília pavon escolhido por ela pra figurar no blogue do coletivo ciclístico de mulheres. ana-erre-a-errante-e-outras, sempre no circuito do faça-você-mesmo.

a rosa (roberta ferraz), também preciso falar dela. eu prometi várias coisas, eu sei. devo ainda comentar uns livros. é tanta coisa. e disse, ainda, que estaria aqui uma vez por semana e não pude cumprir. mas hoje, pelo menos, vou deixar um sinal de vida.

AQUI o texto da yvette centeno sobre o delicado trabalho da rô em lacrimatórios e enócoas | sobre a tríplice instigância do fio, fenda, falésia | por fim, sobre o dioniso e ariadne | cuja saudação tive bem mais do que alegria em escrever, a convite da minha flor-ouriço-escorpião, carneirinho de água, feiticeira, amiga. ponho neste corpo estranho e deixo umas reticências providenciais. digo, em tempo, que estou com o manto, da apaixonante márcia tiburi |  agora sim, a tal saudação à rosa, enfiada lá no livro:

Tempo premido, pequenos delírios na aridez urbana: há mulheres que picham insights. Em muros ou telas. Que se fixam no talvez-agora. Que transitam nestes telefones sem fio para ouvidos moucos. Há mulheres contemporâneas.

Roberta Ferraz é outra. De cordas tensas. Do tempo que é sempre o mesmo, indiviso, e, no entanto, foge de si em mil máscaras – espelho do antigo Meandro, rio que entorna águas para dentro.

Agora (e é sempre agora), ela tange o falo de Dionísio, dono de todas as máscaras. Dedilha o instrumento. Quando o ventre contorna a primeira curva, ela avança, e a música se desembaraça do silêncio: ali, o canto do bode, a violência oculta de todos os corpos, novamente entre os ritos da palavra submersa, palavra-primeira, palavra que arranca a cabeça das sibilas e ergue o palácio dos mitos.

Ali, onde Ariadne ainda se lança ao Outro, o de chifres, mordedor de bacantes. Ali, onde Ariadne, ainda abandonada em Naxos, exibe a coroa das Horas. Onde Ariadne também é Anima, Ariana, tríade: “tripé de um mesmo porto”. Mulher-expansão. Ali, a música se emaranha no corpo, na morte, e renascem rituais de orgia, sacrifício.

Há mulheres com teares. Que desfiam jogos de luz e sombra e suturam retalhos de memória; afiam pontos cegos e estrelas de sete pontas; desafiam notícias sobre astúcia, então vibram, desviam a rota; elas recriam o mundo debaixo dos panos; brilham, pupilas de Vênus, assim avançam.

Esta é a trilha: a jornada de um desejo. Anima: o feminino sobre o mundo. Ariadne: começo do percurso. Ariana: deusa caprina, a que arranca da angústia um lance de dados, nunca-renúncia, quem comanda o início e o reinício, infatigável.

Cada uma sente a ferida no monstro-irmão – castigo que Teseu aplica em todos: herói impiedoso. Sente o beijo do Flautista: deus que furta o juízo e arrasta a magia para o escuro de origem. Deus que desata as amarras do tino e reata a vontade com a própria fonte.

Sob o dorso deste Animal – o Ritmo – e com a destreza de Hermes, ponte entre dois mundos, Roberta reconta histórias subterrâneas, as mesmas de antes, as mesmas de sempre, inteiramente novas. E põe a mulher no centro da dança.

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