sincronicidade de teares e outros sustos

primeira leitura-epístola | destinada às moiras: erica zíngano, renata huber, roberta ferraz e multidão
endereço do remetente: fio, fenda, falésia | trilivro polilíngue
assunto: o antes do ensaio | ai!

Do silêncio que se fizera em seu espírito, ele sentiu, à maneira de reflexo que abandonasse um espelho, destacar-se um outro ser, ligado aos seus sentidos, mas alheio às paredes. Modelou toda a copa da árvore semi-invisível, o tronco, a inchação das raízes; as pedras úmidas, além; outras folhagens, um telhado escuro, a erva rala junto ao muro rachado _ coisas fugidias, a fasciná-lo com sua consistência de sonho. Fechou os olhos, isto não alterou a contemplação. Com aterrorizada alegria, sentiu-se disperso, livre na vastidão da manhã. osman lins

— ainda não posso falar deste livro. — nem eu dele. — que livro? não era tríade sagrada? — ainda é. (esse além-mar). (e a confusão dos séculos). — umas vozes esparramadas. — putz, que merda! — o quê? — como vou atravessar a rua agora, olhar pra direita e pra esquerda, com essa coisa enfiada no pulmão, perdida no cérebro? entupida com esse animal, um sei lá que nem existe (ou existe até demais) nesse canto inteiro — ora, vire-se! — mas pra onde? — eu não sei. — eu não sei. — eu não sei. — cê ficou mesmo com o cu na mão. — com as tripas-coração. — e essa rima tão clichê? — ora, chapeuzinho, o escudo aqui é pra te ouvir melhor.

então vai nessa. derrama o sangue espesso. e com força. derrama-se. uma chuva de flores velhas. exala cheiro forte, alucinógeno.

o livro (este?) tríade sagrada: ainda sabe mais de mim do que eu dele. e arrasta meu útero-paisagem por labirintos de espelhos. ali, uns alquimistas (e muitos portugueses entre eles). uns mestres. uns nem sabem quem são. ou quem são mais. nessas mulheres tecelãs fendidas.

falhas, lampejos (uns divinos — é o que dizem do humano quando apanha o voo em plena caixa, de surpresa — como se fosse o mesmo. sabe?) e ruídos e êxtase em cada rangido (dentes e portas batem), o bruxismo, o espanto, o resto. três – e muitas mais – metamorfoseadas (num casulo aflito, cantante) na Outra. de memórias-profecias.

e outras ainda. costuram galáxias em forma de teias.

e rocas. e rocas.
repete?

rasgam meu corpo inteiro. ali o flagra: movimento abrupto de um desejo. esse desejo em expansão ao redor da morte. o que a palavra corta ao meio. e recorta. e recorta. esfiapa. esfarela.

a tríade apanha os retalhos, emenda, borda o desenho de ponta-cabeça: ideia enfiada no grito do esqueleto. cadáver de veias e artérias. veias-artérias como rotas marítimas. escuro entre o ânus e a caveira – e o rosto-moldura em três sombras.

e agora?

agora o nunca. que de tão marcado entorna. entorna sempre. sabe-se lá quando será menos.

será?

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