O corpo sem lugar | Alfredo Fressia


Não o corpo situado em regiões limítrofes, mas o corpo (ele mesmo) fronteira movediça.  (…) Em “A Última Ceia”, poema de abertura do livro Canto Desalojado,  fica nítido o movimento autofágico, que põe a voz em “viagem fabulosa/ao redor do corvo,/ do ovo ou da morte”. Corvo que escapa dos bolsos, ovo que é obstrução na alma, alma como um “mal entendido”, obstrução na linguagem, desvio. O traidor é o poeta,  ameaça que beija.

Durante a leitura, o Canto Desalojado do título tornou-se, de forma cada vez mais nítida, Corpo Desalojado. (Sempre hóspede — e sempre hóspede em si mesmo.) E cada palavra, também travessia para a jornada de um usurpador, gêmeo do sujeito nuclear, ao mesmo tempo relator de seus resíduos e delator de sua morte. Ali, portanto, o corpo deste Outro acoplado à rota, numa urgência de ser dito – o irmão morto, o irmão mítico, origem de todo fratricídio.

Desse esquema corporal sempre dúbio, é possível “contemplar a ausência” do rosto “sete dias postergado”; “inverter o curso do sangue”; aprender o “ódio aos espelhos”, estar onde não se é, “e a córnea não sente/um cristal refletor”. É possível desfazer, meticulosamente, “o cadarço dos tornozelos”; dobrar, por fim, a coluna como um “feto”. Reverter a estrutura básica ao ninguém – mínimo múltiplo comum do que (existe) resiste.

Ou, ao contrário, enunciar o corpo acabado em si mesmo, implosão congelada, como o travesti que atravessa poemas e madrugadas frias. Andrógino de operações alquímicas. Marginal das ruas e (de) outras paisagens.

A estrutura desmorona, e vemos ossos em plena queda, na “hora do incêndio”. O último monólogo do ator. O grito “escava o desterro”, embaralha memórias e futuros. Tudo em estado de ameaça. Colapso latente. O corpo, território alheio. Não há posse nem mesmo do destino, constatação inscrita no verso “e nunca foram nossas as linhas das mãos”, do texto “Os Emigrados”, em que a fortuna (a sina) mescla-se, no signo, à mesma ideia de deslocamento no corpo, corpo não pertencido. Sentimento de ocupação provisória, ou, mesmo, de ocupação incompleta, sempre fronteiriça.

É neste sobressalto constante que o leitor seguirá. Em pérolas de construção sintática e imagética, trançando histórias à história e ao mito, em composições de extrema beleza. Destaco poemas como “Belo Amor” (o erotismo do “sexo idêntico/idêntico”); “Mas a rosa”; “Aeroportos”; “Três mesas do Sorocabana”; “Obediência”; “Eclipse”; “Os persas”; “Lição de História”; “Penitência” e todos aqueles organizados no capítulo de inéditos.

Incríveis.

Corpo Desalojado. Corpo em trânsito. Pelos corpos de outros homens;  por quadros bíblicos; no interior da memória a transpassar os séculos; em breve passagem pela assepsia amorfa e assexuada dos aeroportos; em trânsito – nos exercícios de amor e morte.

Maiara Gouveia. São Paulo, novembro de 2010.

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