Durante o corpo | Márcia Tiburi

Digo, no “tempo exato do talvez que me alucina”, que o efeito maior da arte é criar matizes fundamentais (aberturas) à sombra de uma possível totalidade secreta, ainda que inventada na sutura de muitos panos.

Dito em Magnólia:

“quase não se percebe o jogo sutil das cores, por isso são sutis e, em caso pior, compõem o azul secreto, a cor perdida, procurada pelos califas e reis medievais e encontrada só em camaleões ou azulejos de qualquer procedência. Mas há os muitos panos de texturas e pesos diversos.”

É um dos pontos altos do livro. Um, entre vários. Márcia movimenta insetos e costura esses matizes extraordinários no tecido, desde o forro.

“Uso-os como se fossem meus, como se tivessem sido apenas meus”

E há uma dívida a ser paga. Ler (também) é flagrar essa herança sem destino. E a sensação de se pôr nos vestidos de outro. “Alguma coisa neles esvoaça angustiada”. Tule ou mariposa? Talvez ambos. Ou nenhum.

“O vestido é um corpo sobrado.”

Quem se espanta com as palavras (e Magnólia é puro espanto) tem o poder de encantá-las; torná-las desdobráveis: um mundo muito próprio, do qual é impossível se despir. Ali, a confusão dos signos, em vívida sensação. Esse procedimento mental de poeta coloca Tiburi entre os autores inclassificáveis.

Classificar é ordenar o mundo a partir de conceitos escolhidos ou criados durante o ato. Por exemplo:

  • O poeta é aquele que reinventa a nomenclatura; desloca seus ossos; apanha dos ritmos para musicar o incognoscível em cada objeto ou movimento de objetos.
  • O filósofo delata a mentira dos nomes; põe num catálogo a transformação permanente dos sentidos; expõe a descoberta posterior à dissecação das ideias.
  • O romancista, por sua vez, estende uma corda entre o suposto real e este como pode ser visto, de acordo com a manipulação da luz. #decodifique à luz do teu desejo

Escrever melhor é embaralhar tudo isso.

Márcia realiza o desacordo. Entre o fenômeno e a essência, séculos em forma de cortina.

Nem sei. As cortinas perdem cada vez mais a transparência. As divisórias se deslocam. Diria, no fim das contas (eu, que não sou boa em matemática):

Embrenhar-se no vão entre o dito e o não dito, na paisagem movediça de mortos exigentes, é estar no susto Magnólia, exatamente onde a mãe desfia um rosário, ou a vida é perigosa e a gente foge, indo (cada vez mais) para dentro.

II

Cada morto é uma legião de perguntas. A solidão tem tanto entulho e poeira como qualquer terreno baldio. E os besouros ameaçam subir do pote à superfície.

Magnólia é um romance de fatos. Ali, a imperfeição da consciência, em busca de um abrigo, voa ao redor de um sol falso e cai no centro do mundo. O vestido é o corpo. Não há mais fronteira entre a essência e o fenômeno.

O morto, no entanto, está entre as coisas paralíticas. Coisas que não podem ser vistas e não se veem. Coisas que não podem ser ditas ou dizer que não são. Coisas perfeitas. Coisas inúteis. Coisas para pregar na roupa, num lugar íntimo. Para prender junto ao corpo.

Nada é mais sério do que explorar os compartimentos do mistério. O mistério, alheio à urgência, inibe a exploração e engole compartimentos. Apenas as coisas podem deixá-lo exposto, de forma bruta e irremediável. Márcia vasculha essas cartas em branco. Só duas foram escritas. E têm a concisão e o imperativo dos bilhetes: sede e desconforto.

Tudo acontece ao mesmo tempo (inclusive a morte). A memória, presa na imagem, é outro cadáver. O tempo se estilhaça e o escuro se transforma em breu ao redor do lúmen concentrado.

Em Magnólia, há uma biblioteca. É impossível precisar o tamanho e a profundidade. Certamente foi apreciada com intensidade. Sem dúvida, explorada de forma sensível e inteligente.

Passei a noite em claro lá dentro. Descosturando a luz nos pontos frouxos. Amando as palavras – essa casca do nada. E a Sempre em Fuga –chamada verdade. Sem dizer do tudo o mais, em detalhes, pro depois.

[…]

Em Magnólia, “os nomes próprios da vertigem”.

Maiara Gouveia. São Paulo, novembro de 2010

Anúncios

4 comentários

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s